Lutar, criar: poder popular. Medrar, entender: ficou tudo por fazer.
Existir em resistência com a estrutura produtivista e capitalista que serve e é servida pelos estados e as instituições não foi, nunca, uma questão de “quem governa hoje, o estado?” mas sim de “que poder popular carece de uma representação nessas instituições?”.
Acreditar que foi o 25 de abril nos trouxe liberdade e aceitar a genérica leitura de que a opressão se desmonta com a queda de um regime é a prova de que herança fascista e colonial nunca foi verdadeiramente problematizada. Contentamo-nos com a pouca liberdade que nos foi dada e confiamos plenamente que um sistema representativo seria democrático, embora a visível asfixia do movimento popular, em nome de uma estabilidade governativa, previsse o contrário. Como poderia ser, em si, a estabilidade um bom presságio para um país tão pouco capaz de questionar o seu lusotropiclismo, a relação com a igreja, os modos patriarcais, o nepotismo — mesmo na alvorada da liberdade — assim, entregue ao neoliberalismo do ocidente para que minasse as nossas cabeças de inevitabilidade e responsabilidade num insucesso que não tivemos nunca meios de contrariar, nem ninguém nos perguntou, sequer, se queríamos.
Que estabilidade é essa senão a de existir em conveniente e conivente satisfação com o sistema capitalista e, por consequência, em permanente reação a essa estrutura que nos espreme de vida e nos codifica como capital humano?
Somos profundamente iletrados politicamente, mas não é essa iliteracia desculpa para as consequências lógicas das inações políticas dos últimos 50 anos. Uma sociedade que podou o movimento popular por medo que, ao andar, quisesse ir longe demais, não pode agora fingir (ou querer unir sobre a égide de uma memória de resistência que, em si, também tem muito que se lhe diga) que é através das instituições que se recupera esse fervilhar de coletividade. Desenganemo-nos se achamos que podemos esperar de um parlamento resistência: a resistência existe por antítese ao poder e ter um assento parlamentar também é um poder cristalizado, que conglomera, numa pessoa, a agência de representar várias vozes, fosse essa opção higiénica alguma vez melhor do que ouvi-las a todas; fosse essa representatividade assintomática da uniformização das nossas diferenças e consequente limitação das nossas lutas. Como é possível que o direito ao meu corpo, ou à minha identidade, ou minha livre circulação sejam ainda matéria de debate na tv, ainda matéria de referendo, ainda rebatíveis consoante a força política que se apresente? Porque haveria de dedicar energia a lutar por um direito aos olhos do estado se, além disso, não estou a questionar porque um código de ação autoritário me quer convencer que ter os mesmos direitos que o outros é o caminho da luta quando esses direitos são, em si, uma bota que nunca me serviu para caminhar em liberdade?
Há corpos e vidas que nunca puderam, objetivamente, ser livres — nesta democracia representativa com 50 anos a que alguns chamamos tempo de liberdade — porque os nossos direitos nunca foram inalienáveis, porque as nossas vidas nunca foram estáveis e porque os nossos sonhos nunca foram alcançáveis.
E mesmo assim, se acordar em cada dia para existir em resistência exige a coragem de ocupar esse lugar sem passar pelos pingos da chuva — para quem, nesse lugar, nunca pode passar pelos pingos da chuva — saiba-se que, não nos controla mais o medo do que a esperança. A esperança de construir soluções justas, coletivas e dissidentes, que verdadeiramente radicais por irem às raízes das questões, apresentem uma mudança profunda ao nível do mais pequeno gesto dentro das nossas redes de afeto, para que este medre num comportamento distinto, depois, nas nossas outras redes de solidariedade.
O diálogo faz-se com quem tens algo em comum e, por isso, o diálogo entre quem tem muito e quem não tem nada não será, nunca, suficiente para que passemos a ter, cada um, o que é justo. É urgente que entendamos que só através de um movimento popular capaz de existir em multiplicidade de ideias e em permeabilidade para construções coletivas que espelhem os desejos de quem as constrói, à medida que se constrói, podemos criar uma real alternativa ao sistema que destrói o planeta e arruina as nossas vidas.
É urgente que nos organizemos de formas solidárias, cooperativas, transformadoras e, sobretudo, paralelas e alternativas ao modelo representativo e aos seus vícios previsíveis.
Para essa alternativa ser efetiva e capaz, é basilar que tenhamos a capacidade de analisar, enquanto combatentes de todas as opressões, que é das existências que mais resistem que nascem, tendencialmente, as propostas mais revolucionárias e que é um dever coletivo, na sementeira do futuro, deixar que a chama dessa mudança te consuma para lá do que te é imediato. E mesmo confiando em forças partidárias, em algum momento, é inegável a incapacidade que qualquer peça necessária à manutenção do sistema tem de o desmontar, por dentro, uma vez que é o próprio acumular de poder capaz de corromper quem nele participa.
A diferença entre o conforto e o privilégio é tão ténue quão ténue for a linha entre o cuidado e o trabalho para ti.
Este texto não é uma reação aos resultados das eleições de ontem, da mesma forma que não seria mudado caso os resultados fossem outros, porque me é indiferente quem ganha umas eleições (mesmo que, em boa verdade, isso afete muito materialmente a minha vida). O que não me é indiferente é a permeabilidade que já existe para, por um lado, a ingenuidade completa no sistema até do mais esquerdista dos deputados e, por outro, a facilidade com que o ódio e a discriminação que crescem por brandura do sistema e por infantilização daqueles cuja linha política que nunca teve, verdadeiramente, contraditório.
Há mais política na comida que comes e nas pessoas que amas do que num dia inteiro de emissão sobre as eleições porque há mais poder real em jogo nas nossas vidas do que alguma vez haverá num parlamento que se contenta em debater quanto dinheiro é pouco o suficiente para eu merecer um apoio, como se alguma vez fosse resolver a origem real de qualquer fome que eu tenha.
Hoje, e aqui no blog, convidamos-te a organizares-te e a questionar os modos para, como o funcho que nos dá nome, podermos medrar, livres e daninhas, em qualquer circunstância criada por um sistema que nunca esteve montado a nosso favor e, a cada dia, semear um futuro que ponha a vida em primeiro plano.
Para ti, o que ainda está por fazer?
Título do artigo:
afinal queremos tudo
por Bá de Sá

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