estamos aqui e não vamos a lado nenhum

Neste dia 31 de março em que se celebra a vida, a existência, a resistência, a coragem e o direito à presença das pessoas trans e não binárias importa salientar que não só os trágicos ataques que martirizam a população dissidente de género merecem lugar nas nossas memórias, e que não só de memória se constroem as nossas identidades.

Estamos vives e, para lá do impacto transformativo da nossa autodeterminação e vivência em resistência, somos membros ativos da sociedade, quer lhe seja conveniente incluir-nos ou não. Somos amigues, somos namorades, somos vizinhes, somos companheires, somos primos, somos avós. Somos professores, somos cozinheires, somos electricistas, somos artistas, somos programadores, somos médiques, somos desempregades. Somos corpos humanos e somos, como qualquer ume. Mais a coragem de acordar todos os dias para se ser como qualquer ume e se ser todes e se ser só cada ume de nós, ao mesmo tempo.

E vivemos nas mesmas ruas, e comemos nas mesmas mesas e dormimos nas mesmas camas e tomamos banho e limpámo-nos a uma toalha. Estamos em todo lado a toda a hora, em todas as culturas, em todo o mundo, mesmo quando não nos olham como se estivéssemos, mesmo quando fingem que estamos de outra forma, mesmo quando preferem que não estejamos. Quem tem o nome certo no cc e quem não tem sequer o marcador de género certo, e quem quer casar e quem nem sequer do estado quer saber. 

Somos identidades múltiplas, infinitas, únicas e coletivas como todas as outras identidades que se tornam relevantes como categoria social, mas as nossas vidas passam por irrelevantes até desaparecerem.

Não exigimos visibilidade, porque não cabe a ninguém delimitar a sua capacidade de me ver: demonstramos a nossa visibilidade num dia de celebração porque marcamos o reconhecimento que as nossas vidas subversivas mas, também, mundanas e humanas, merecem. A verdade é que somos visíveis em todos os sentidos, porque existimos de forma dissidente e transformativa, porque aceitamos a fluidez de cada identidade e a exploramos livremente e não é o olhar para o lado ou a exclusão dos nossos corpos ou a delimitação da correspondência à cisgeneridade como marcador de validade da nossa vida capaz de ofuscar tão brilhante existência. Não exigimos respeito, porque o respeito é um direito de todo o ser humano e não haveríamos de mendigar o que nos pertence.

Celebramos as nossas vidas, porque estamos vivos e em resistência, e é até a nossa resistência maré que catalisa a mudança e o ampliar de outras liberdades, outras formas, outros pensares…

Convidamos-te a pensar de que pessoas trans te rodeias, em que circunstâncias e de que modos. O que falta para que, na tua vida, haja espaço para cuidar, amar, conviver e conhecer pessoas trans e não binárias? Porque a nossa luta não é só luto; porque a alegria trans é imensa, é contágio que libera e é imensurável.

Neste dia, cabe-nos dizer, com muito orgulho que o FUNCHO foi durante mais de um ano operado por uma pessoa trans não binária e que funciona como cozinha transformativa porque se baseia nos princípios do transfeminismo e do antiautoritarismo. Cozinhamos de forma autogerida porque cuidamos também as nossas vidas e os nossos corpos, mas sobretudo, os nossos sonhos.

Estamos aqui, estamos felizes, e não vamos a lado nenhum!

Feliz dia da visibilidade trans e não binária 🏳️‍⚧️⚧️

Título do artigo:

estamos aqui e não vamos a lado nenhum

por Bá de Sá

Tempo de leitura:

2-4 minutos

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